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Pesquisa procura entender como a endometriose se agrava e causa dor

#Farol de Notícias (Atualidades científicas que foram destaque na semana)

A endometriose se instala, progride e causa dor em consequência de uma interação complexa entre células do sistema nervoso e do sistema imune

Durante a menstruação, as mulheres eliminam a camada de células que reveste o útero internamente, o endométrio, devido a oscilações hormonais que ocorrem quando não há fertilização e implantação de um embrião. Quando o endométrio, que deveria ser eliminado pela vagina, migra até à cavidade abdominal, gera uma doença inflamatória crônica que afeta de 10 a 15% das mulheres e dos homens trans, denominada endometriose. 

Para entender como a endometriose causa dor, as equipes lideradas pelo farmacêutico Waldiceu Verri Junior, da Universidade Estadual de Londrina (UEL), e pelo biólogo molecular Michael Rogers, da Escola Médica de Harvard, nos Estados Unidos, realizaram diversos experimentos com amostras de pacientes com endometriose, células do endométrio cultivadas em laboratório e camundongos portadores de uma enfermidade que simula a endometriose.

Foram utilizadas amostras de lesão doadas por oito mulheres com endometriose e comparadas com lesões dos roedores. Os pesquisadores constataram que ambas são inervadas por neurônios sensoriais que conduzem a sensação de dor para o cérebro de um tipo específico: os neurônios produtores de CGRP (Calcitonin gene-related peptide), um peptídeo que funciona como comunicador químico entre células. O CGRP altera o funcionamento de macrófagos, células do sistema imune e, ao invés de remover as células da endometriose, favorecem a sua multiplicação. Camundongos modificados para não liberarem o CGRP apresentam lesões menores e menos sinais de dor do que os do grupo que produz o CGRP.

endometriose
A microscopia mostra macrófagos (em vermelho) próximos a neurônio (em verde) produtor de CGRP em lesão de endometriose de camundongos. Fonte: Tiago Zaninelli / UEL

Um estudo publicado em 2023 na revista Nature Genetics indicou que pessoas com endometriose compartilham características genéticas com quem sofre de enxaqueca, desordem na qual o peptídeo CGRP tem papel importante. Com base nisso, Fattori e colaboradores testaram se medicamentos usados no tratamento de enxaqueca que bloqueiam a ação do CGRP podem reduzir a gravidade da endometriose. Foram utilizados os anticorpos fremanezumabe e galcanezumabe, que neutralizam o CGRP, e dois compostos bloqueadores do receptor ao qual o CGRP se liga na superfície das células de defesa, o rimegepant e o ubrogepant.

Roedores tratados com essas medicações apresentaram lesões até 50% menores do que os que receberam uma solução sem nenhuma propriedade médica (placebo), embora não tenham sido observadas diferenças no número de lesões. Os animais tratados com os medicamentos mostraram menos sinais de dor, lambiam menos o abdômen e apresentavam menos contorções do que os do grupo de controle.

Uma das limitações do estudo que descreve o papel do CGRP na endometriose é que os testes foram realizados com um modelo da doença em camundongos. Além disso, ainda não se sabe quanto tempo duram os efeitos do bloqueio da via do CGRP, algo importante em uma doença.

 

Colaboração:

Vitor Batista sobre o autor

Vitor Batista é graduando em ciências biológicas na FFCLRP/USP e acredita que a ciência precisa ser difundida para o público com linguagem acessível, sendo alcançada por meio de projetos como a Ilha do Conhecimento.

 

Fontes e mais informações sobre o tema:

Matéria da Revista Pesquisa FAPESP, intitulada “Estudo procura explicar como a endometriose se agrava e causa dor“, publicada em novembro de 2024.

 

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