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Pesquisa demonstra que é possível estabelecer diálogo em tempo real com pessoas adormecidas

  • February 26, 2021

Cientistas estabelecem uma comunicação bidirecional com indivíduos adormecidos durante sonhos lúcidos.

Os conceitos de sonhos lúcidos (percepção consciente de identificar o estado de sonho) e de incubação de sonhos (uma técnica que visa focar a atenção em algo específico antes de dormir para sonhar com isso) são os temas que inspiram o filme Inception (A origem). Nesta ficção científica há um grupo de indivíduos capazes manipular os sonhos, sendo consciente de suas ações além de influenciar os sonhos alheios. Assim como a descoberta publicada semana retrasada nesta mesma seção, “Rede de ‘estradas celestiais’ no espaço é revelada”, o estudo discutido essa semana nos remete ao universo de ficção científica. Dessa vez nos voltamos ao universo de Inception. Cientistas de diferentes centros de pesquisa neurológica e do sono conciliaram os resultados de seus grupos, revelando que é possível estabelecer uma comunicação com pessoas dormindo. O trabalho foi publicado na revista Current Biology. 

Dormir nada mais é do que passar do chamado “estado de vigília” para o “estado de sono”, ou seja, é passar da condição de estar acordado, para uma condição de estar dormindo. O sono oscila em ciclos que dividem-se em: NREM (traduzido do inglês, Movimento Não Rápido dos Olhos”) e REM (traduzido do inglês, Movimento Rápido dos Olhos). O sono REM é caracterizado por ter intensa atividade cerebral, sendo também nesta fase que os sonhos acontecem. Como a maioria das pessoas têm dificuldade de lembrar dos sonhos ou possuem apenas lembranças fragmentadas, entender a importância neurológica dos sonhos era um desafio aos pesquisadores da área.  Assim, estabelecer uma metodologia que permite uma interação bidirecional em tempo real entre o pesquisador e o indivíduo que está dormindo sinaliza uma ótima perspectiva para compreensão fisiológica da importância dos sonhos.

À esquerda há um indivíduo numa polissonografia ou exame do sono (teste multiparamétrico utilizado no estudo do sono e de suas variáveis fisiológicas) e à direita o resultado do exame. Fonte: Gizmodo Brasil

Em entrevista ao Gizmodo Brasil, o neurocientista cognitivo e autor da pesquisa, Ken Paller, explica que o objetivo desse estudo era aprender mais sobre o porquê de os sonhos acontecerem e como esse entendimento pode ser útil para a função mental durante o despertar. Em trabalhos anteriores observaram que estímulos sonoros externos podem influenciar o sono. Assim, entenderam que há indivíduos capazes de entrar em um estado de sonho lúcido, permitindo a interação entre o mundo externo e dos sonhos, uma vez que foi observado um tipo de resposta através de movimentos oculares. Nesse contexto, os pesquisadores pensaram que seria possível estabelecer uma comunicação bilateral entre os sonhadores e os observadores despertos em condições laboratoriais. Isso representa uma ótima metodologia para entender as implicações fisiológicas dos sonhos.

O trabalho contou com 36 voluntários sendo que alguns tinham experiência mínima anterior com sonhos lúcidos, outros eram sonhadores lúcidos frequentes e um era paciente com narcolepsia (indivíduo capaz de entrar no ciclo REM rapidamente) que tinha sonhos lúcidos frequentes. A metodologia desse estudo consistia na transmissão de estímulos externos tais como emissão de sons, luzes e contato físico, e na análise de respostas por meio de sinais eletrofisiológicos vindos do indivíduo que estava no estado de sonho lúcido. Para uma demonstração de prova de conceito, foram apresentados problemas matemáticos e perguntas do tipo sim ou não. Os sonhadores responderam em tempo real com movimentos oculares volitivos ou sinais dos músculos faciais.

Resumo esquemático da metodologia empregada no estudo, onde “IN” refere-se aos estímulos recebidos e “out” refere-se às respostas dos indivíduos adormecidos. Fonte: Konkoly et al., 2021.

Durante a análise os voluntários foram capazes de compreender novas informações, mantê-las, além de exprimir respostas simples e/ou volitivas (esforço deliberado, é uma das principais funções psicológicas humanas). Esse fenômeno foi chamado de “sonho interativo”. O compilado de resultados dos diferentes grupos de pesquisas exposto neste artigo, permite concluir que é possível analisar as características fenomenológicas e cognitivas dos sonhos em tempo real. Os autores afirmam que esse canal de comunicação relativamente inexplorado pode permitir uma variedade de aplicações práticas e uma nova estratégia para a exploração empírica dos sonhos. Apesar das boas notícias, eles ressaltam o pequeno número amostral do estudo e que, por isso, as conclusões devem ser vistas com ressalvas.

News: Iasmin Taveira

sobre a autora

Fontes e mais informações sobre o tema:

Artigo científico intitulado “Real-time dialogue between experimenters and dreamers during REM sleep”, publicado na revista Current Biology em 2021, de autoria de  Konkoly e colaboradores.
https://www.cell.com/current-biology/fulltext/S0960-9822(21)00059-2

Matéria no site Gizmodo Brasil, intitulada “Cientistas descobrem uma forma de se comunicar durante os sonhos”, publicada em 19/02/2021.
https://gizmodo.uol.com.br/cientistas-forma-comunicacao-sonhos/

Conteúdo do site Wikipédia, acesso em 25/02/2021.
https://pt.wikipedia.org/wiki/Sono

(Editoração: André Pessoni)

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