#Ciência et al. (Conteúdos repletos de informações científicas)
Como uma antiga doença ameaça a mais nova geração?
DESTAQUES: • A poliomielite, ou paralisia infantil, pode causar paralisia permanente, sequelas neurológicas e até a morte; • Foi terrivelmente temida e vacinas foram desenvolvidas com urgência contra ela; • Após décadas aproximando-nos da erradicação da doença, a poliomielite volta a ser uma ameaça. |
A poliomielite é uma doença causada pelo vírus poliovírus que ataca o sistema nervoso e pode levar à paralisia, infecção neurológica e morte. O poliovírus pertence ao gênero Enterovirus, caracterizado por seu desenvolvimento no sistema digestivo; e está dentro da família Picornaviridae devido ao formato de sua estrutura viral.

O poliovírus pode ser transmitido pela via fecal-oral, através da ingestão de água ou alimentos contaminados com fezes de indivíduos infectados, ou pela via oral-oral, quando ocorre o contato com partículas virais presentes na saliva e em aerossóis. A doença afeta principalmente crianças menores de 5 anos de idade e que são justamente o grupo que realiza maior contato direto de objetos e das mãos com a boca durante as brincadeiras infantis.
Com a infecção estabelecida no corpo, os sintomas apresentados podem ser respiratórios, como febre e dor de cabeça, ou intestinais, como vômito e constipação. Mas, nos casos severos (1/200) ocorre a destruição das células nervosas da medula espinhal causando paralisia irreversível sobretudo nos membros inferiores, sendo que 5% a 10% dos indivíduos afetados morrem por paralisia dos músculos respiratórios.
Foram as sequelas irreversíveis que deram origem ao nome popular pelo qual a doença é conhecida: paralisia infantil. Tão notórias, as sequelas causadas pela poliomielite foram registradas já em uma tábua da civilização egípcia no século XIV a. C.

Para além do Antigo Egito, a poliomielite esteve presente em 126 países, incluindo o Brasil, infectando cerca de mil crianças por dia no século XX, principalmente nos países que se encontravam em situação de extrema pobreza.
Seu alto risco individual e seu moderado risco coletivo impulsionaram diversas pesquisas em busca de soluções para esse problema de saúde. Entre elas, destacam-se as dos cientistas John F. Enders, Thomas H. Weller e Frederick C. Robbins, laureados com o prêmio Nobel, que conseguiram propagar o poliovírus em diferentes tipos celulares, descoberta a partir da qual as pesquisas com vacinas puderam evoluir.
A primeira vacina contra poliomielite foi desenvolvida em 1953 pelo cientista e médico americano Jonas Salk, através da inativação do poliovírus. Ela foi amplamente testada clinicamente em 1954, utilizando 1,8 milhões de crianças dos EUA, Canadá e Finlândia, com resultados de 80% a 90% de eficácia.
Então, no ano de 1955, essa vacina passou a ser utilizada de forma injetável nas campanhas de vacinação dos Estados Unidos da América. A segunda vacina eficiente contra a paralisia infantil foi criada pelo cientista e médico polonês Albert Sabin em 1961, por meio da atenuação do vírus e com administração via oral – razão pela qual é popularmente chamada de “gotinha”.

Ambas as vacinas foram largamente utilizadas com urgência, visando a erradicação dessa ameaçadora doença. O empenho das campanhas de vacinação atribuído ao longo dos anos foi eficaz e reduziu o número de casos de poliomielite em mais de 99%, o que em números significa que o total de 350.000 casos no ano de 1988 foi reduzido para 29 casos notificados no ano de 2018.
Além disso, dos países anteriormente afetados, somente 2 países são endêmicos para poliomielite atualmente: o Paquistão e o Afeganistão. Entretanto, a existência de apenas dois países endêmicos é suficiente para gerar 200.000 novos casos de paralisia infantil em todo o mundo por meio da “importação do vírus” através de viagens internacionais e transações comerciais entre países com baixa cobertura vacinal contra a doença.
No mundo globalizado do século XXI, a importação do poliovírus dos países endêmicos é uma possibilidade constante e, portanto, é fundamental que a cobertura vacinal esteja em dia, impedindo a circulação do vírus entre os indivíduos. No Brasil, a cobertura vacinal tem a meta de 95% das crianças até 5 anos de idade imunizadas contra poliomielite. Contudo, a cobertura vacinal no nosso país vem caindo bruscamente, chegando a uma queda de 21% em 2017.
Segundo o departamento de informática do Sistema Único de Saúde do Brasil (DATASUS), em 2021 somente 30% de todas as crianças de até 1 ano de idade foram vacinadas com a primeira dose. E é preciso relembrar que o alívio da erradicação da poliomielite no país em 1994 só foi possível com a vacinação completa de 95% de todas as crianças brasileiras até os 5 anos de idade.
Infelizmente, a perda do status de país livre de poliomielite está ocorrendo com diversos países em todo o mundo. Após trinta anos de conquistas, há 28 países com retorno da paralisia infantil devido à queda de suas coberturas vacinais; 33 países na região do Mediterrâneo Oriental, na África e na Europa (incluindo Ucrânia e Israel) estão sofrendo com surtos da doença; em grave risco de retorno estão o Haiti, o Peru, a República Dominicana e a Venezuela; assim como também estão em alto risco a Argentina, a Bolívia, o Equador, o Panamá, o Paraguai e o Brasil. Algumas das razões para a queda na vacinação são: religião, pobreza, medo, teorias da conspiração e o isolamento social durante a pandemia de COVID-19.
Assim, cientes de que a vacinação é a única forma de erradicar a doença, as campanhas de vacinação se intensificaram em todos os países. No Brasil está em vigor a campanha “Paralisia Infantil: a ameaça está de volta” com o objetivo de conscientizar os pais e/ou responsáveis a levar todas as crianças menores de 5 anos que não estejam com a imunização completa contra poliomielite a qualquer Posto de Saúde em sua região para receberem a primeira dose ou a dose de reforço pela vacina injetável ou pela vacina oral, que são distribuídas gratuitamente pelo SUS e estão previstas no Plano Nacional de Imunização. As crianças podem ser levadas com ou sem o cartão de vacinação, pois este pode ser fornecido imediatamente. Tanto as consequências da negligência quanto os benefícios da vacinação começam na infância e duram a vida toda.
Mais informações podem ser obtidas pelo site da campanha: www.paralisiainfantil.com.br.
Colaboração:
Pamela Beatriz de Menezes Lemos sobre a autora
Licenciada em Ciências Biológicas, Especialista em Gestão Ambiental e atualmente Mestranda em Ciências (Parasitologia e Imunologia Aplicadas) pelo Programa de Pós-Graduação em Medicina Tropical e Infectologia da UFTM. Faz pesquisas na área da Doença de Chagas e palestras sobre vacinação.
Referências:
Campanha de vacinação intitulada “Paralisia Infantil: a ameaça está de volta”, realizada de agosto a setembro pela Sociedade Brasileira de Imunizações em 2022 (www.paralisiainfantil.com.br).
Livro “Virologia Humana”, de autoria de Santos, N., Romanos, M., Wigg, M., e colaboradores, publicado pelo Grupo GEN em 2021.
Matéria na Revista Pesquisa FAPESP intitulada “As razões da queda na vacinação” publicada em 2018 (http://revistapesquisa.fapesp.br/2018/08/17/as-razoes-da-queda-na-vacinacao/).
Matéria no site da BIO-MANGUINHOS (Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos da Fundação Oswaldo Cruz) intitulada “Poliomielite: sintomas, transmissão e prevenção”, publicada em 2022 (https://www.bio.fiocruz.br/index.php/br/poliomielite-sintomas-transmissao-e-prevencao).
Site da Organização Pan-Americana da Saúde (https://www.paho.org/pt/topicos/poliomielite)
Site da Iniciativa de Erradicação Global da Pólio (https://polioeradication.org/polio-today/history-of-polio/)
Vídeo “Zé Gotinha, a história”, de autoria de Darlan Rosa (https://www.youtube.com/watch?v=hfkSORTX8_s)
- Quer ser o próximo autor colaborador do Ilha do Conhecimento? Participe!
- Não perca mais nenhuma postagem: Acompanhe nosso projeto nas redes sociais!
(Editoração: Fernando F. Mecca e Loren Pereira)